Publicado por: revistainternacionaldoconhecimento | 29/07/2010

CRÔNICA – “Johnny vai a guerra” , a supremacia da razão sobre as percepções, Gustavo Lunz

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“Johnny vai a guerra” , a supremacia da razão sobre as percepções

Gustavo Lunz

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O filme “Johnny vai a guerra” exibe a tragédia do protagonista fictício da história, um jovem saudável que é recrutado para lutar durante a segunda grande guerra, é ferido em combate e sobrevive num hospital militar, vítima de danos irreversíveis. Johnny tem seus braços e pernas amputados, perde a visão, a audição e a capacidade de se comunicar verbalmente. O foco do filme está no sofrimento e na interação de uma mente que aparenta ser perfeitamente normal, com uma realidade doentia. Até muito próximo do final do filme, as pessoas tratam-no como um autômato destituído de humanidade, devido a ignorância de sua condição, e observam-no como uma experiência biológica.

A primeira vista, o filme deixa claro para o espectador que a pessoa humana não se restringe às limitações físicas representadas pelo corpo. Coloca o corpo em uma perspectiva secundária, como se ele fosse menos do que um mero veículo para a mente – o centro real de onde provém tudo aquilo que chamamos de individualidade ou consciência.

A mente de Johnny revela-se como a única ferramenta disponível para enfrentar a situação. Embora o filme possua algumas peculiaridades, as angústias de Johnny não são completamente desconhecidas ou inéditas. A literatura tem-nos oferecido um número razoável de personagens que representam o desespero da solidão, como Robinson Crusoé, de Defoe, entre outros.

Muitas são as observações que se pode fazer a partir desse fenômeno. A mente enquadrada numa tal situação, revela características suas que, embora não sirvam ao propósito de compreensão de sua natureza absoluta, ajudam o tracejar de rascunhos intrigantes a seu respeito. O principal anseio da mente isolada é a comunicação. Precisa se fazer notar e obedecer o imperativo biológico da socialização. O obstáculo eminente que Johnny precisa vencer, depois de entender a própria situação, é essa extrema dificuldade de adquirir informações do exterior e transmitir suas informações interiores sem o uso de suas percepções mais primárias.

Com efeito, o sucesso de Johnny é um paralelo importante com a noção comum de supremacia da mente sobre o corpo, observado com mais clareza nos processos de reabilitação onde a única esperança é a própria força de vontade do indivíduo.

Notadamente, as culturas orientais são as que mais enfaticamente chamam atenção para o assunto. Preceitos dos yogis, conhecidos a pelo menos cinco mil anos, afirmam que o homem (em sua condição de superioridade e sabedoria) precisa tornar-se senhor da própria mente para que seu corpo não roube-lhe as rédeas da vida. Assim, “o corpo deve obedecer a mente e não o contrário”. Surpreendentemente, observamos que os feitos mais incomuns, relativos a mente ultrapassando os limites do corpo são registrados no oriente.

Homens que sobrevivem sem alimento ou água em temperaturas abaixo de zero durante estados de meditação que podem durar dias, são um exemplo típico. Técnicas milenares que permitem a elevação da temperatura corporal até que se produza calor suficiente para queimar folhas de papel ou a cura de doenças, da mesma forma consistem numa demonstração prática de que a mente, quando treinada, é capaz de feitos que são no mínimo duvidosos para o homem comum.

Esse é o tema explorado por exemplo, no filme Matrix, onde o protagonista NEO é o escolhido que vai demonstrar a mediocridade do cotidiano que as pessoas vivem através de fenômenos considerados impossíveis pela maioria, através da libertação da própria mente. Não por coincidência, uma  história semelhante a de todas as religiões centradas em avatares, messias e derivados como o Cristianismo e o Budismo.

Justificável portanto, a passagem que mostra o encontro de Johnny e Jesus Cristo em determinada cena, conversando sobre as opções de Johnny frente a realidade ou irrealidade de um rato que o atormenta. A mente de Johnny vai ao encontro do único homem que ele crê ser capaz de feitos impossíveis, para lhe ajudar. Esse é um ponto crítico que fomenta mais perguntas que respostas no decorrer do filme.

Se tudo se passa isoladamente na mente de Johnny, o poder de sua força de vontade é tão grande que precisa ser escoado por algum caminho, que é criado por sua mente através das informações que este tem a respeito do único homem conhecido, capaz de realizar feitos impossíveis. Se Johnny fosse budista, sua mente provavelmente lhe apresentaria Buda e se fosse wiccan, alguma imagem arquetípica relacionada a magia. Essa ponte que precisa ser criada, entre a necessidade de solução e o meio para que isso aconteça é responsabilidade da mente, que tem a sua disposição um reservatório de memórias e lembranças, aplicáveis ou não.

Dessa forma, não há aqui um relacionamento da mente com o meio externo, mas um relacionamento dela para com ela mesma já que ela não alcança Jesus Cristo em pessoa, mas a imagem que tem dele. O paradoxo se mostra mais claramente quando analisamos a forma com que nós, seres humanos saudáveis, nos relacionamos. Mesmo gozando de todas as nossas faculdades, o entendimento mental que fazemos de uma conversa com outra pessoa na realidade ocorre justamente entre a imagem que temos dela e a de nós mesmos. Nossa comunicação, equívoca, não transmite apenas uma interpretação do que precisamos dizer e os espaços de não-entendimento da conversa são preenchidos por suposições que criamos a partir da informação que temos.

Nossa mente cria, de fato, nossa realidade. A sede por informação e pela troca de informação que observamos a partir da condição de isolamento de Johnny é análoga ao que experimentamos no cotidiano, vista sob o efeito de uma lente de aumento. É nossa mente tentando crescer com as informações que recebe, acumulando soluções ou mesmo improvisos que mantenham a força de vontade bem assistida de opções e escoamentos.

Se a mente e a inteligência, numa dimensão maior, foram respostas da biologia humana como reações evolucionárias de adaptação para a sobrevivência, provavelmente enfrentamos no nosso passado primitivo um obstáculo digno de medo.

O isolamento da raça humana parece ter sido muito maior que o de Johnny. Para resolver nosso problema, o universo nos apresentou a mente e aqui estamos com ela, escrevendo crônicas. Ironicamente, assim que Johnny consegue manifestar a  voz de sua mente e finalmente comunicar-se, descobre que será ignorado e esquecido pelos seus semelhantes. Será isolado como provavelmente sempre esteve em sua mente, em seus próprios pensamentos.

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