Publicado por: revistainternacionaldoconhecimento | 06/01/2011

SANEAMENTO – Uma análise sobre a expansão urbana da cidade do Rio de Janeiro e a demanda por serviços de saneamento básico, por Margareth A. de Azeredo e Ana Lucia Torres Seroa da Motta

Uma análise sobre a expansão urbana da cidade do Rio de Janeiro e a demanda por serviços de saneamento básico.

Margareth A. de Azeredo, email: margarethazeredo@gmail.com

Ana Lucia Torres Seroa da Motta, email: anaseroa@hotmail.com 

RESUMO

 

Este artigo tem o propósito de verificar o desenvolvimento da cidade, a expansão territorial e o crescimento desenfreado que continuam a preocupar do ponto de vista das condições sanitárias do Município do Rio de Janeiro. Muitos problemas ocorreram desde o início da implantação das primeiras redes de esgotamento sanitário e hoje se repetem. Este trabalho tem como objetivo analisar as possíveis razões destes acontecimentos, assim como suas conseqüências para a população.

PALAVRAS CHAVE: Saneamento, expansão territorial, favelas.

ABSTRACT

This article has the purpose to verify city development, the territorial expansion and spread out which still concern considering sanitary conditions of Rio de Janeiro city. Many problems have occurred since the beginning of the first sewerage networks implementation and they still repeat today. The study aims to examine the possible reasons for these events to occur as well as their consequences for the population.

Key Words: Sanitation, territorial expansion, slums.

INTRODUÇÃO

Na atualidade as deficiências da rede de esgoto do Município do Rio de Janeiro claramente evidenciam uma realidade que traz de volta alguns cenários de caos ocorridos no inicio das intervenções de saneamento básico no Rio de Janeiro.

Segundo (SILVA, 2002) o Rio de Janeiro foi a terceira cidade do mundo a implantar uma rede de esgoto, sendo, portanto uma das pioneiras no assunto. Isto, no entanto não trouxe garantias à cidade de ter seus serviços de saneamento pautados em uma gestão voltada para o acompanhamento deste desenvolvimento.

Em momentos de grandes chuvas as ruas ficam alagadas, se transformando em verdadeiras lagoas poluídas, dando origem a presença de todo tipo de resíduo. Hoje é comum imagens de crianças se utilizando destes logradouros para brincadeiras. As bacias hidrográficas, por sua vez, recebem uma enorme carga de lixo e esgotos que são literalmente despejados pelas enxurradas. O mar se transforma em depósito de resíduos.

Segundo Silva (2002), em relatórios realizados em 1853 pela Junta Central de Higiene Pública, órgão fiscalizador da higiene dos portos e das cidades naquela época, eram descritos entre outras, as seguintes causas de insalubridade:

  • Os despejos das imundícies unidos aos esgotos, despejos orgânicos e a umidade;
  • Os rios que circulam na cidade estão carregados de imundícies;
  • O lixo das ruas e das praias.

Todas estas causas atualmente se repetem no cenário diário, principalmente nas favelas dos bairros do Município do Rio de Janeiro. Hoje estas situações são evidenciadas da zona norte à zona sul da cidade, aumentando consideravelmente em dias de grandes chuvas.

Um dos motivos destes acontecimentos é a enorme população instalada inadequadamente nas favelas. As ocupações irregulares em morros trazem ao panorama do Município uma triste realidade: o aumento da população marginalizada, desprovidos ou com acesso precário às redes de esgoto, água e luz.

Este artigo fará um levantamento sobre o panorama das favelas no Município do Rio de Janeiro relacionado aos serviços de abastecimento de água, coleta de lixo e rede de esgotamento sanitário e as conseqüências para a qualidade de vida da população. Enfocará o período compreendido entre o ano de 2000 e 2008, anos em que foram publicados a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB). Também se utilizará de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2009). Com relação ao levantamento da situação das redes de saneamento básico das favelas, o estudo foi pautado nas pesquisas realizadas pelo Instituto Pereira Passos (IPP, 2009). 

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A ocupação irregular e acelerada faz com que grande parte de população ainda se instale sem a adequada infra-estrutura no que diz respeito ao saneamento.

A expansão urbana da região metropolitana do Rio de Janeiro apresentou uma história de crescimento urbano, marcado pela expansão nas periferias. Neste desenvolvimento residia a população de classe mais baixa com forte desigualdade da oferta de infra-estrutura e serviços. A instalação de equipamentos, como infra-estrutura de água e esgoto, luz e energia, gás, coleta de lixo, serviço de correio, saúde e educação naturalmente encontrados na cidade formal não chegaram com facilidade às favelas (FERREIRA, 2009).

Por força da Lei nº. 20/74, houve a junção dos Estados e Territórios. Neste momento ficou estabelecido que os Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro passariam a constituir o Estado do Rio de Janeiro. Com isto ocorreu a fusão da ESAG, SEDAG e SANERJ. Desta união, foi criada em 1º de agosto de 1975 a Companhia Estadual de Águas e Esgotos – CEDAE – que absorveu a companhia Estadual de Águas da Guanabara – CEDAG, a Empresa de Saneamento da Guanabara – ESAG e a Companhia de Saneamento do Rio de Janeiro – SANERJ (SILVA, 2002, VII, p.234).

Com a criação da CEDAE – Companhia Estadual de Águas e Esgoto do Estado do Rio de Janeiro, os setores de água e esgotos, que ao longo de sua história estiveram a maior parte do tempo separados, ficaram juntos para facilitar os objetivos do Plano Nacional de Saneamento (PLANASA). Através deste plano o governo Federal, o Estado e os Municípios reuniam recursos financeiros para solucionar seus problemas de saneamento básico (CEDAE).

O Município do Rio de Janeiro deixou de ser gestor das políticas de saneamento, cabendo este papel ao Estado, através da CEDAE até 2007. Neste momento, através de um Convenio entre o Estado e o Município, foi passada para a Prefeitura, através da Rio Águas, a Gestão da AP5, região que envolve 21 bairros da Zona Oeste da cidade.

Desta forma, o Rio de Janeiro atualmente tem a sua gestão no setor de saneamento básico realizado pelo Estado e pelo Município. Estas gestoras alem de serem responsáveis pelas aprovações de projetos e licenciamento das unidades a serem implantadas pela expansão urbana, são responsáveis pela implantação de novas redes de esgotamento sanitário e pelo sistema de tratamento e destinação final dos rejeitos.

A questão principal a ser analisada por este trabalho no contexto dos problemas do saneamento do Município é o crescimento da população nas favelas e suas implicações para o saneamento básico.

Por definição, o IBGE, conceitua favela como um adensamento implantado em terras ilegais (públicas ou não), marcadas pela insalubridade e desordem:

Aglomerado subnormal (favelas e similares), conjunto formado por no mínimo 51 unidades habitacionais, que ocupa terreno de propriedade alheia, dispostas de forma desordenadas, carentes, em sua maioria de serviços públicos (IBGE, 2000).

Segundo Silva (2002) as primeiras favelas tiveram a sua implantação a partir da Proclamação da República, quando muitos escravos libertados iniciaram a ocupação pelo Morro da Providência. Hoje as favelas se encontram espalhadas por todo o Município, num total de 26 Regiões Administrativas, desde a Zona Portuária, até bairros como a Barra da Tijuca e São Conrado.

Para Soares (2006):

As favelas são um dos maiores exemplos da configuração sócio espacial extremamente desigual da cidade do Rio de Janeiro. Elas se formaram ainda na segunda metade do século, ocupando áreas inutilizáveis, ao menos em um primeiro momento, pelo mercado imobiliário. Espalharam-se pelo tecido urbano carioca a partir dos anos 1920, ocupando um lugar de destaque na estrutura urbana e política da cidade. Dada a proximidade espacial do mercado de trabalho e o custo relativamente baixo do acesso à moradia nas favelas, estas se revelaram um elemento estrutural do desenvolvimento econômico da cidade, permitindo a redução do peso dos fatores moradia e transporte sobre o custo da mão-de-obra.

Segundo Ferreira (2009) a impiedosa especulação imobiliária é um dos fatores responsáveis pela expulsão de milhões de moradores pobres da cidade para as periferias e para as favelas. Esta população fica sujeita às inundações, deslizamentos e a todo tipo de risco, levando-os à graves doenças, inclusive ligadas a falta de saneamento básico.

Hoje a Região Metropolitana do Rio de Janeiro é composta, segundo a lei n° 105 de 2002, por 17 Municípios: Rio de Janeiro, Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaboraí, Japeri, Magé, Nilópolis, Niterói, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São Gonçalo, São João de Meriti, Seropédica, Mesquita e Tanguá.

Dados do IBGE baseado no ultimo Censo ocorrido em 2000, aponta que das 513 favelas registradas na Região Metropolitana, mais de 100 estavam concentradas na zona oeste. Na ilustração 1 pode-se verificar na paisagem urbana do Rio de Janeiro, o nítido contraste entre a favela e as edificações formais da zona sul da cidade.

   
Ilustração 1: Favela do Morro Dona Marta na zona sul carioca.Fonte: http://www.trekearth.com/gallery/South_America/Brazil/photo512623.htm em 20/09/2010

 

A Fundação Getúlio Vargas (FGV), através do Centro de Políticas Sociais (CPS) e o IPP lançou um relatório em janeiro de 2009 mapeando a cidade. Com relação à ocupação territorial, a pesquisa mostra que a população favelada passou a ocupar mais três milhões de metros quadrados do que ocupava em 1999. Segundo o IPP, as favelas passaram a ocupar 3,7 por cento do território do Município:

A cidade do Rio hoje é subdividida em 32 Regiões Administrativas (RA’s) também chamadas de Subdistritos, cinco destas RA’s são favelas, áreas de urbanização ou de remoção de antigas favelas, a saber: Complexo do Alemão, Jacarezinho e Rocinha (3 favelas); Maré (antiga favela) e Cidade de Deus (área de remoção) (FVG, 2010).

 Com a intenção de melhor conhecer estas comunidades, a Prefeitura realizou um estudo em 2009 através do IPP. Este estudo será utilizado pelo IBGE para auxiliar no atual Censo 2010 com a finalidade de padronizar o conceito em relação às favelas. Foram estabelecidos dois tipos básicos de favelas em um universo de 1020 unidades, sendo divididas em dois grupos totalizando 645 unidades, a saber:

a) as favelas isoladas: aquelas comunidades com limites claramente identificáveis, com denominação própria e distante de outros assentamentos num total de 481 unidades.

b) complexo de favelas: formados por favelas que por sua proximidade, conformam uma mancha urbana única. Nestas comunidades existem grandes ruas e avenidas, rodovias, ferrovias, viadutos e rede de energia. Aqui se encaixam as 538 comunidades que estão agrupadas em 144 complexos (IPP, 2009).

Segundo estudos do IPP, cerca de 20 por cento dos habitantes da cidade moram atualmente em favelas.  As pesquisas sobre o crescimento das favelas, sinalizam que se a ocupação do Rio de Janeiro continuar crescendo no ritmo em que está, em 2024 os condomínios e prédios de Jacarepaguá estarão todos cercados por favelas (FERREIRA, 2009).

Ocorre que muitas favelas não podem ser beneficiadas pelas redes de esgotos convencionais, face às condições em que foram construídas as moradias. Em muitos casos estas comunidades surgiram sem respeitar o espaçamento adequado para que fossem projetadas as vias públicas. Sem haver a distribuição apropriada entre as moradias, o que se vê é um amontoado de construções, que dificulta a implantação das redes de esgotamento sanitário nestes locais. Diante deste fato, nem todas as ocupações nos bairros do Rio de Janeiro são passíveis de serem beneficiadas com a instalação de redes de esgotamento sanitário.

A parcela da população que não é beneficiada com o direcionamento adequado de esgotos ainda é grande. Isto vem agravar o quadro de insalubridade. Não existindo o direcionamento apropriado, grande quantidade corre a céu aberto. As bacias hidrográficas se transformaram em grandes valões de esgoto como ocorria no século XVIII. Vários estudos têm demonstrado que a qualidade de vida e a biodiversidade da Região Metropolitana estão afetadas pela presença de bactérias e gigogas oriundas do esgoto. Em diversas ruas do Município o esgoto corre a céu aberto, sendo comum crianças à brincar em meio ao esgoto e o lixo, conforme se visualiza na ilustração 2 e 3.

   
Ilustração 2: crianças brincando no mar de lixo. Fonte: malmg.blogspot.com/2009lixo-marinho. Ilustração 3: Crianças brincando perto de esgoto à céu aberto.Fonte: www.cidadeparalela.wordpress.com

Segundo o IPP, das 645 unidades existentes, estima-se que 122 unidades não têm condições apropriadas para serem urbanizadas devido à condição de risco a que estão submetidas. Este diagnóstico tem a finalidade de reassentar estas comunidades em habitações produzidas pelo Programa Minha Casa, Minha Vida. A ilustração 4 mostra o quadro geral destas comunidades levantadas em 2009 (IPP, 2009).

TIPO UNIDADES DOMICILIOS
Favelas não urbanizáveis(estimado) 122 12.973
Pequenas favelas com menos de 100 domicílios 193 7.409
Favela entre cerca de 100 e 500 domicílios 159 37.066
Favela com mais de 500 domicílios, parcialmente urbanizada. 36 114.144
Favela com mais de 500 domicílios, não urbanizada. 61 104.547
Total 571 276.139

Ilustração 4: Quadro Geral do panorama das favelas cariocas.

Fonte: IPP – Diretoria de Informações da Cidade – Informações 2009.

Através de programas implantados pelo Município, existe o movimento de execução de serviços de esgotamento sanitário em favelas, que foi iniciado em 1995. Segundo Soares, (2006), o Decreto 14.332 de 1995, estabeleceu os objetivos do Programa Favela Bairro permanecendo até 2009. Este projeto consistia em, respeitando o capital construído pelos moradores, complementar ou construir a estrutura urbana principal da favela (saneamento e maior acessibilidade a estes espaços), de forma a preencher todas as condições para serem consideradas a como verdadeiros bairros.

A Prefeitura atualmente lançou o Programa Morar Carioca, um Plano Municipal de Integração de Assentamentos Precários Informais com a finalidade de integrar estas comunidades à Cidade do Rio de Janeiro. Para tanto foi firmado um convenio, entre a Secretaria Municipal de Habitação (SMH) e o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) tendo como objetivo principal promoverem ações relacionadas à implantação de serviços públicos nas comunidades através de projetos urbanísticos (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO).

A inexistência de rede de esgoto somada a deficiência relacionada a coleta de resíduos constituem-se as principais dificuldades encontrados nas favelas. Os resíduos produzidos pelos habitantes não são totalmente recolhidos, deixando grande parte deles sem destinação final adequada. Considerando o crescimento acelerado e contínuo desta população nas comunidades informais, é fácil concluir os problemas inerentes ao aumento na produção de resíduos não tratados. A água das chuvas é quem trabalha fazendo o transporte destes direcionando-os para as ruas, rios e mares da cidade. Esta solução acarreta imensas áreas degradadas no Município.  Os recursos hídricos ficam poluídos, além da existência de problemas de saúde ocasionados pelas doenças oriundas da falta de saneamento.

Desta forma a não contenção das ocupações irregulares, trás para a realidade da cidade pontos bastante negativos. Sabe-se que cada favela que se inicia trás a certeza de direcionamento incorreto de esgotos e resíduos e consequentemente, maior acúmulo de poluição, doenças correlatas e degradação ambiental.

A Companhia de Limpeza Urbana (COMLURB), empresa encarregada da coleta de lixo na cidade, iniciou em 1998 o serviço de recolhimento de resíduos produzidos por 36 comunidades. Atualmente recolhe o lixo de muitas favelas que surgiram na geografia urbana com o passar do tempo. Embora estes serviços ocorram, a porcentagem recolhida em relação à produção ainda é pequena. Para que a coleta dos resíduos seja realizada, a COMLURB utiliza metodologias variadas para facilitar o ingresso ao local, considerando-se que estes assentamentos se dão em locais com grande dificuldade de acesso.

Segundo o Censo do IBGE (2000), e o relatório publicado pela FGV através de levantamentos do IPP sobre as principais comunidades em extensão, a coleta direta do lixo nas favelas é ainda inferior, se comparado aos bairros. O percentual relativo ao atendimento dos serviços públicos nas cinco principais favelas cariocas é demonstrado na ilustração 5.

COMUNIDADES REDE DE ÁGUA (%) COLETA DE LIXO (%)
Cidade de Deus 98,2 79,1
Rocinha 95,3 10,7
Complexo Alemão 97,6 48,8
Jacarezinho 98,5 64,8
Maré 99,5 85.0

Ilustração 5: Serviços públicos nas favelas cariocas

Fonte:  CPS/FGV a partir dos dados do PNAD 2000/IBGE.

Os índices mostram as diferenças entre o percentual relacionado a rede de abastecimento de água e a coleta de lixo podendo-se concluir que o alcance da coleta de lixo fica muito inferior à implantação da rede de abastecimento de água. Isto sinaliza para a precariedade dos serviços públicos relacionados a coleta dos resíduos. A ilustração 6 se refere a um levantamento realizado pelo IPP, demonstrando a evolução do percentual de coleta de lixo desde 1997 até 2008, baseados nos dados da PNAD (2008). A coleta de lixo nas favelas é ainda bastante inferior a coleta realizada no restante da cidade. No cômputo geral, o percentual relacionado à coleta nas favelas é de 67,41% contra 92,17% nos aglomerados especiais. Embora este índice tenha crescido em 10,5 pontos percentuais desde o inicio contabilizado, um percentual significativo ainda não é direcionado adequadamente.

COLETA DE LIXO MUNICIPIO RIO DE JANEIRO (%) 
Período 1996/97 1998/99 2001/02 2002/04 2005/06 2007/08
Aglomeradosespeciais 93,25 94,99 91,21 93,21 93,00 92,17
Favelas 56,86 54,16 45,84 63,25 81,35 67,41

Ilustração 6: Coleta de lixo no Município do Rio de Janeiro.

Fonte: CPS/FGV a partir dos dados da PNAD/IBGE.

Isto significa dizer que em 2007, um percentual de 32,59% do montante de resíduos produzidos pelas favelas não possuíam direcionamento adequado. Considerando a grande diversidade destes resíduos e a variedade de seus componentes, é extenso o grau de poluição lançado indevidamente no meio ambiente.                   

A região metropolitana do Rio de Janeiro, também conhecida como Grande Rio tem a maior taxa de urbanização do país, segundo o PNAD 2008, com 99,36% da população localizada em áreas urbanas. Baseada nas informações sobre a coleta de lixo fornecida pela COMLURB e fazendo um estudo comparativo sobre a evolução da população, é possível avaliar a quantidade a resíduos que não é recolhida adequadamente relacionada às favelas.

Segundo a COMLURB, a produção de lixo no Município (β) é de 1,50 kg/hab./dia. A população nas favelas (α) é de 1.161.047 habitantes, dados do IBGE (2008). A coleta domiciliar (γ) de 1.576.935 t/ano (COMLURB). Desta forma é possível determinar a média coletada ao ano como sendo de 0,26 t/hab./ano conforme demonstrado na ilustração 7.

ζ =β x α x 365                        (t/ano)                         (1)

ϕ = γ- ζ                                   (t/ano)                                     (2)

CLASSIFICAÇÃO POPULAÇÃO[1] 2008      (hab.) LIXO PRODUZIDO(t/ano) LIXO COLETADO     (t/ano) LIXO SEM DESTINAÇÃO      (t/ano)
Município 6.161.047      3.373.173     3.109.054          (92,17%)     264.119
Favelas 1.232.209     674.634       454.771      (67,41%)    219.863

Ilustração 7: Panorama destinação final  de resíduos.

Fonte: Dados IBGE PNAD 2008 e COMLURB 2010.

Por analogia, considerando-se que o crescimento das favelas tenha ocorrido uniformemente e na mesma proporção que a população total, pode-se levantar, por estimativa, o panorama em 2009 relacionado à coleta dos resíduos de quatro das favelas citadas no trabalho. Desta forma, pode ser estimada a quantidade de lixo que não teve direcionamento final adequado, e que provavelmente foi destinada às ruas, poluindo os solos e recursos hídricos do Município, demonstrado na ilustração 9.

FAVELAS POPULAÇÃO[2] 

(hab.)

POPULAÇÃO[3] 

(hab.)

LIXO PRODUZIDO[4](t/ano)  LIXO DOMICILIAR COLETADO [5](t/ano)  LIXO NÃO COLETADO(t/ano)
Cidade de Deus 1.822 1924 1053,39 67,41% 343,29
Rocinha 56.313 59.466 32.557,63 67.41% 10.610,5
Complexo Alemão 56.903 60.089 32.898,27 67,41% 10.721,5
Maré 69.851 73.762 40.384,70 67,41% 13.161,4
PopulaçãoRio de Janeiro 5.857.904 6.186.710 3.387.223 92,17% 265.219,56
Favelas Total 2.182.744 2.304.977 1.261.974 67,41% 411.277,32

Ilustração 8: Produção de lixo e coleta de resíduos.

Fonte: Pesquisa COMLURB 2009, IBGE (Censo 2000 e contagem população 2009).

A seguir demonstra-se na ilustração 9, as principais favelas e a identificação dos recursos hídricos próximos a cada uma delas.

Ilustração 9: As favelas e as proximidades com os recursos hídricos.

Fonte: IBGE. Adaptado pela autora.

Ante o cenário apresentado, a quantidade de resíduos que não tem direcionamento adequado é evidente. Toneladas destes são levadas pelas enxurradas para as sub-bacias relacionadas a seguir:

  1. Cidade de Deus: Sub-bacia do Rio Anil e Oceano Atlântico;
  2. Rocinha: Sub-Bacia do Rio da Cachoeira e Oceano Atlântico;
  3. Maré e Jacarezinho: Sub-bacia do Mangue e Baia de Guanabara
  4. Complexo do Alemão: Sub-bacia do Rio Irajá e Sub-bacia do canal da Penha.

Face ao exposto é possível verificar que, hoje o Município tem que enfrentar os seguintes problemas:

  • Grande a contaminação dos recursos hídricos e mananciais pelos esgotos, pela carga de resíduos provenientes das favelas e direcionados inadequadamente pelas águas das chuvas;
  • Lixo de toda natureza encalhados nos bueiros após grandes temporais;
  • Aumento nos casos de doenças causados pela falta de saneamento básico;
  • Ocorrência regular de grandes enchentes e alagamento pelo entupimento de canais e redes de esgotos e de drenagem;
  • Proliferação de insetos, roedores e microorganismos patogênicos;
  • Poluição visual do ambiente entre outros fatores;

Isto remete ao inicio da historia do saneamento no Município do Rio de Janeiro, quando não havia procedimentos adequados. A lama, a podridão e as resultantes deste processo traziam à população doenças e pouca qualidade de vida.

CONCLUSÕES

Através da análise dos problemas existentes no sistema de esgotamento sanitário do Município do Rio de Janeiro nos dias de hoje, verifica-se que a evolução das ocupações irregulares trás conseqüências negativas para as condições de saneamento básico de todo o Município. As ocupações irregulares oferecem à população um cenário onde se constata grande fragilidade com relação à disponibilidade de serviços públicos. A ausência de saneamento nestas áreas produz uma carga de poluição que pode ser visualizada ao longo de toda a cidade. Apesar do grau de desenvolvimento de alguns bairros, ainda se observa a existência de esgoto a céu aberto e grande quantidade de resíduos sólidos que não têm direcionamento final adequado.

Todo este contexto vem trazer à cidade uma enorme carga poluidora para seus recursos hídricos. Exemplos disto é a degradação da Baía de Guanabara, da Lagoa Rodrigo de Freitas assim como de todo o complexo lagunar e praias do Município. Estes problemas vem se arrastando por toda a história da implantação dos serviços de esgotamento sanitário no Rio de Janeiro. Torna-se patente a incapacidade do sistema de esgotamento sanitário de lidar com os diferentes formatos de expansão habitacional na cidade fazendo com que o Rio de Janeiro terceira cidade no mundo a instalar um sistema de tratamento de esgoto em 1847, hoje ocupe posição inferior a cidade X da África pobre.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AZEREDO, M. A. de; MOTTA, A. L. T. S. da – A história do saneamento no Município do Rio de Janeiro, 2010.

CEDAE, A história do tratamento de esgoto no Rio de Janeiro disponível em www.cedae.com.br, acessado em. 18/10/2009.

FERREIRA, Álvaro. Favelas no Rio de Janeiro: nascimento, expansão, remoção e agora, exclusão através de muros. Revista Bibliográfica de Geografia Y Ciências Sociales. V.XIV. n° 828, 2009.

FGV – Fundação Getúlio Vargas. Desigualdades e Favelas Cariocas: a Cidade Partida está se integrando? Marcelo Néri (coordenador). Rio de Janeiro. FGV/CPS, 2010.

FGV – Fundação Getulio Vargas. Relatório Trata Brasil. Rio de Janeiro. 2007.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Perfil dos Municípios Brasileiros. 2007.

IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. PNAD 2008.

IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo 2000.

Silva, José Ribeiro da, Os Esgotos do Rio de Janeiro. VII. 2002.

SOARES, Gonçalves Rafael. A Política, o direito e as Favelas do Rio de Janeiro. Um breve olhar histórico. Journal dês Anthropologues. (2006, nº. 104-105)


[1] Dados IBGE (2008)

[2] Dados IBGE 2000

[3] Dados IBGE 2009

[4] Dados COMLURB (2010)

[5] Dados COMLURB  2008

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Responses

  1. adorei…super completo me ajudou bastante em um trabalho tecnico…
    obrigada…


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